As Cuecas

O ANJO

«Bobi! Larga isso! Mas que raio tens tu na boca? Ora essa é boa, são umas cuecas!»

O Bobi, um cão cheio de pedigree escocês, de marca golden retriever, com uma árvore genealógica que remonta ao Sec. XIX, com BI passado pela Cãoservatória do Registo Civil Canino, com o pêlo dourado ligeiramente em desalinho, abanava o rabo suavemente em sinal de alegria pelo seu novo troféu.

«Já não posso passear na rua contigo, que apanhas tudo o que te aparece à frente das ventas. Se ao menos apanhasses notas de quinhentos euros… Mas dás em apanhar cuecas de gajas. Ao menos estão lavadas. Bem basta o teu mau hálito habitual.»

O dono do bicho, conhecido no bairro como o Chico, rapaz com cerca de trinta anos de idade, bem conservado em cerveja, moreno, com ar de engatatão, solteiro militante, homem de todas as mulheres e ao mesmo tempo de nenhuma, de estatura média e entroncado, de olhos negros e grandes, com barba permanentemente por fazer, passeia todos os dias pelas ruas de Lisboa o seu vistoso canzarrão sem trela, uma vez que ele sabe o código da estrada, sempre na esperança de que alguma gaja boa lhe venha fazer festas, não se sabendo bem se ao cãozinho, se a ele próprio, ou idealmente a ambos, por ambos serem criaturas de Deus. É um homem de paixões. Adora tremoços, cerveja, caracóis, mulheres solteiras, percebe tudo de futebol e é campeão de matraquilhos. É o paradigma do macho latino lisboeta.

«Estas cuecas devem ter caído dum estendal.» – disse o Chico ao Bobi.

Rosnou o Bobi de cuecas na boca: «Serão cuecas, serão conecas ou serão colhoecas? Eis a questão! Há que ser rigoroso na linguagem. Cá para mim são umas conecas.»

O Bobi, com o focinho no ar e de cuecas dependuradas na boca, e o Chico, de nariz no ar e de boca aberta, perscrutaram donde teriam voado as cuecas. Entretanto assomou à janela dum 4º andar uma mulher loura com vinte e poucos anos de idade, não conseguindo o Chico descortinar se ela tinha olhos verdes, azuis ou às riscas, mas o que lhe saltou imediatamente à vista foi o impressionante par de mamas de que ela era detentora, tão impressionante que lhe ofuscava o brilho do olhar. O cabelo ligeiramente ondulado pendia-lhe para a frente e para o lado, derramando-se em suaves ondas sobre um dos peitinhos quase a saltar fora do generoso decote que descia quase até ao umbigo.

«As cuecas são suas?» – perguntou o Chico.

Continuavam ambos de focinho no ar a mirar tal criatura que irradiava beleza lá das alturas, não se sabendo bem se do céu, na forma dum anjo, ou se do inferno, na forma duma tentação do diabo.

«Sim, são minhas.» – respondeu ela com uma voz doce e celestial capaz de derreter o coração gélido dum esquimó com hipotermia.

«São suas o caraças!» – rosnou o Bobi entredentes. «Agora são minhas! Fui eu, que as apanhei!»

<Este tipo tem aspecto de terrorista da Al-Qaeda.> – pensou ela. <Não tenho mesmo queda nenhuma para este tipo de pessoas. Ao menos o cão é bonito. Já estou mesmo a ver que este tipo quer fazer-se a mim à conta das cuecas. Para isso tem de tirar senha e ir para a bicha. O diabo é que as cuecas são de marca Doce Banana e foram muito caras. Tenho de recuperá-las sem ter de ir lá abaixo.>

«Se me pudesse pôr as cuecas dentro da caixa do correio, eu agradecia-lhe a gentileza. A caixa do correio é exterior. Não lhe custa nada. Nem sequer preciso de lhe abrir a porta.»

«Ai, ela é tão bonita. Se ao menos ela me abrisse as portas do seu coração…» – murmurou o Chico.

«O que tu queres é que ela te abra as perninhas para lhe meteres aquilo que tens dentro das colhoecas na coneca.» – rosnou o Bobi entredentes.

«Ó Bobi, dá cá as cuecas!»

«O tanas é que tas dou! Tens de correr atrás de mim, e só tas vou dar se me apanhares.»

«Chega aqui Bobi!»

O Bobi aproximou-se, mas quando o Chico estava prestes a agarrá-lo, fugiu.

«Bobi! Anda cá, já!»

O Chico correu atrás do Bobi, e quando o Bobi tentou fintá-lo, o Chico deu um salto e lá conseguiu agarrar as cuecas à tangente.

«Tu queres ficar com as conecas para depois lhe saltares para a coneca!?» – rosnou o Bobi entredentes. «Então vais ter de puxar por elas derramando sangue, suor e lágrimas, porque eu não vou largá-las.»

O Bobi puxou rosnando as cuecas para um lado, e o Chico puxou-as para o outro rosnando asneiras.

«Larga as cuecas, Bobi!»

E eis que as cuecas se rasgaram, tendo o Chico caído de cu no passeio com metade das cuecas na mão.

<Raios partam a minha vida! Com este farrapo de cuecas na mão, e com este bate-cu, nem sequer posso sonhar subir lá às alturas para adorar aquele anjo.> – pensou o Chico.

Ela, lá nas alturas, soltou uma gargalhada sonora e escarninha perante o bate-cu do Chico.

<Que dupla engraçada.> – pensou ela. <Um tipo e um cão a fazerem figuras de urso na rua. Fiquei sem umas cuecas caras, mas valeu a pena ver o espectáculo. é melhor do que ir ao circo ver os palhaços. Deixa-me cá ir para dentro porque tenho mais que fazer do que estar a aturar estes patetas alegres. Vou curtir uma de heavy metal.>

O Bobi ficou para ali especado com o farrapo das cuecas na boca, quando avistou um gato preto a andar em direcção a ele. Era o Gungunhana.

O Gungunhana é um gatarrão tal, que mais parece ser uma pantera negra. É um gato semi-vadio de pêlo reluzente muito batido na vida, com o focinho todo arranhado devido às muitas batalhas de vida ou de morte com outros gatos, isto só para ter o privilégio de saltar para cima das gatinhas que vai encontrando no percurso da sua vida social muito intensa. A técnica dele para o engate é: quando encontra uma gatinha de rabo alçado miando languidamente, anda de volta dela miando também languidamente e mostrando o seu corpanzil na sua plenipotência; quanto aos gatos que por ali andam por perto, atira-se a eles numa luta de vida ou de morte, acabando invariavelmente por afastar a concorrência depois de haver muito sangue; se durante os miados há pessoas que lhe atiram paus para se calar, ele esquiva-se e canta com escárnio: «Atiraste o pau ao gato-to, mas o gato-to, não morreu-reu,…»; e por fim atira-se sem cerimónias para cima da gatinha disputada, ficando os outros gatos a lamber a pata. Como gato experiente que é, segura as gatas pelo pescoço com os dentes, não vão elas fugir a meio da festa. No fim da festa põe-se a milhas de distância, não vá ele apanhar uma arranhadela no focinho por elas serem umas eternas insatisfeitas. Só teve um desaire na sua vida amorosa que lhe ia sendo fatal. Uma vez, enquanto estava a lutar contra outro gato pela posse da Mata Hari, uma gata siamesa de aspecto fatal e com uns bonitos olhos azuis capazes de fazer um gato trepar paredes, veio sorrateiramente o Tareco, gato sem-abrigo, pardo e noctívago, e saltou para cima dela. Devido a este incidente, o Gungunhana andou muito tempo com o ego de rastos e com ideias suicidas. Atirava-se dos telhados abaixo, mas acabava por cair sempre de pé. Ainda pensou atirar-se da Ponte da Abrilada abaixo, mas como tinha horror à água, arquivou de vez tais pensamentos suicidários.

«Olha um gato preto!» – rosnou o Bobi. «E eu, que não gosto nada de gatos pretos. Vou fazer-lhe a folha.» – dito isto, o Bobi largou o farrapo das cuecas no chão, o qual foi apanhado pelo Chico.

«Olha um cão malcheiroso!» – eriçou-se o Gungunhana.

«Tu não passas duma bola de pêlo vomitada, seu gato fedorento sem piada nenhuma. Vou escorraçar-te de volta lá para a tua terra – a terra das bruxas. Para ficares por cá, tens de te lamber todos os dias com a língua ensopada em lixivia a ver se ficas branco.»

«Isso é que era bom. Eu cá até estou legal em Portugal. Até tenho a pulga electrónica de residência. O que tu tens é a mania que és dono de Portugal lá por seres louro, mas não passas dum rafeiro que toma banho com água oxigenada. Estás para aí a armar-te em importante, mas os teus antepassados andavam a guardar rebanhos de ovelhas pela Escócia. Sabes, lá na minha terra, existem muitas bruxas chinesas que se te apanhassem a jeito, reduziam-te a um saboroso Chop Soy de Cão – prato nº 7. Além disso, acho que deveria haver um canil de reeducação dirigido por gatos pretos para rafeiros xenófobos como tu.»

«Tu estás para aí com tretas, mas eu tenho a pulga electrónica de cidacão português. Pois fica sabendo que os meus avós não eram cães pastores, mas sim caçadores – até caçavam gato por lebre. Além disso, se não estás contente, vai queixar-te ao SOS Narcisismo.»

«Acho que só têm direito a pulga electrónica de cidacão português os rafeiros alentejanos, os cães da Serra da Estrela e os cães d'água portugueses. Tu não passas duma reles importação da Escócia.»

«Tu vais ver, ó gato preto! Vais levar um enxerto de porrada! Olha que eu treino judo. Eu cá aprendi judo no Japão na Escola Kodocão.»

«Ah! Ah! Ah! Estás tramado comigo porque eu, em miúdo, fui um autêntico Karaté Kitten. Também treinei na China kung fu no Mosteiro Chau-ó-Lino. Além disso, eu tenho a colecção completa de filmes do Brucelose Lee em formato VHS. Eu cá sou uma autêntica enciclopédia ambulante de karaté de quatro patas.»

«Tu não passas dum gato-pingado com pingo no nariz que aprendeu karaté na Cova da Moura.»

«Ah! Ah! Ah! Estás enganado. Eu aprendi karaté na Cova da Beloura.» «E tu não passas dum cão ranhoso com ranho no nariz que aprendeu judo em Ranholas.»

«Ah! Ah! Ah! Estás enganado. Eu aprendi judo em Ranhados.»

«Ai é? Tu aprendeste judo em Ranhados? Pois eu vou arranhar-te o focinho todo.»

«Isso é que era bom! Eu é que te vou escavacar o pescoço todo.»

«Isso nem em Belém.»

«Está quieto, Bobi! és um zaragateiro! Deixa lá o pobre do gato em paz!» – gritou o Chico.

«Grrrrrrrrrrrrrrrrrr!»

«Fssssssoooooda-se!»

Cada um rosnava e bufava sem parar. O Chico, com os farrapos das cuecas dependurados nos dedos, observava impávido e sereno a autêntica guerra sem canil e gatil que estava prestes a desenrolar-se. Em lutas de cães e de gatos não se mete ele. Acaba sempre por levar dos dois lados.

Seguiu-se um momento de silêncio e de concentração total. Eles estavam frente a frente quais cobóis num duelo ao sol. O silêncio era tal que se ouviam as moscas a espirrar devido às alergias aos ácaros que viviam nas suas partes pudendas. O Bobi, de repente, deu um salto sobre o Gungunhana com o fim de lhe filar o pescoço com os dentes. O Gungunhana esquivou-se com graciosidade de gato, e de pata em riste espetou com uma valente arranhadela no focinho do Bobi.

«Ai!» – ganiu o Bobi. <Esta doeu e fez sangue.> – pensou. «Agora é que estás fodido comigo, ó gato preto! Vou mandar-te com os quatros pernis esticados para os anjinhos.» – rosnou.

«Isso é que era bom! Tu vais mas é parar à secção de costura do Hospital de S. Joacão todo arranhado nas fuças.»

«Ah-aah! Agora filei-te o pescoço com os dentes. Não escapas deste estrangulamento mortal.»

«Ai é? Então vais ver o que te vai acontecer, ó cão malcheiroso. Vou aplicar-te a técnica da pantera cor-de-lilás que aprendi no YouTúbaros.»

«Ah! Ah! Ah! Uma técnica cor-de-lilás só dum gato abichanado como tu. Vai ser uma técnica cheia de trejeitos amaricados e com kiais de gatinha de sofá.»

O Gungunhana, que estava de barriga para cima e com o pescoço filado pelo Bobi, com as quatro patas em riste meteu as garras de fora, e com movimentos rápidos desferiu golpadas no Bobi por tudo quanto era sítio.

«Ai!» – ganiu o Bobi. <Este gajo é um psicogato de unhas afiadas.> – pensou. <Até já me arranhou os tomates. O melhor é largá-lo antes que saia daqui com um vazamento de espermatozóides. Maldita raça que mete a unha em todo o lado.>

<O melhor é eu fugir daqui antes que este cão me dê cabo dos gasganetes. Não me posso dar ao luxo de perder mais uma das minhas preciosas sete vidas. Já não me restam muitas. Enquanto os gatos europeus têm umas míseras sete vidas, os gatos americanos têm nove. Eles são uns privilegiados neste mundo. Uns têm tudo e os outros não têm nada.>

«Filho duma ganda gata preta! Vai para a terra das bruxas andar de vassoura!» – ladrou o Bobi.

«Ó cão malcheiroso! Vai para a terra do teu avô apascentar ovelhas lanzudas!» – bufou o Gungunhana enquanto atravessava a correr desenfreadamente a rua cheia de trânsito.

Vinha na estrada um carro da polícia a cair aos bocados em marcha de emergência, com os pirilampos a piscar quais olhos de coruja atacados por conjuntivite, e com a sirene a gritar histericamente: «Cheguem-se para lá que eu quero passar!» Como condutor vinha o agente Silva, e como pendura vinha o agente Fagundes.

O agente Silva é um homem com cerca de vinte e cinco anos de idade, alto, musculado, recentemente saído da Escola Prática de Polícia, solteiro e ainda cheio de tusa para endireitar o mundo à porrada. Nascido e criado em Braga, foi mandado de abaixo de Braga para Lisboa, terra de mouros, por não haver lá vaga. Farta-se de fazer serviços gratificados para ganhar uns euritos a mais. é um portista ferranho e tem um ódio de estimação a orelhudos. Vive com uma caterva de colegas numa camarata da polícia em Camarate. Tem a mania que papa tudo quanto é gaja. Lá, na camarata, em Camarate, passa a vida a gabar-se das suas façanhas sexuais aos mais façanhudos dos camaradas, de tal forma que já lhe chamam o Camarinha de Camarate. Como vive ao Deus dará, nas horas vagas passa a vida a arrastar o cu pelos bares, onde chula uns copos na sua qualidade de polícia, e onde anda a ver se catrapisca alguma gaja. Só que nem mostrando o cassetete tem tido sorte com elas.

O agente Fagundes, alfacinha de gema, sportinguista militante, homem com cerca de quarenta anos de idade, de bigode, de estatura média, encorpado e rotundo devido às opíparas feijoadas bem regadas de tinto degustadas na tasca do Ti Manel, ainda anda nas patrulhas porque gosta de acção. Ele é um especialista em artes marciais, tais como judo, karaté e tessen. Enfim, é um autêntico ninja insuflado. Tem uma família alargada constituída pela sogra, mulher, três filhos, cão, gato e papagaio.

A sogra do Fagundes é do Benfica e é uma santa senhora… aos olhos da filha. Elas as duas põem e dispõem dos assuntos familiares. O Fagundes não risca nem arrisca nada, nem sequer a ver um jogo de futebol na televisão. Elas passam a vida plasmadas a ver telenovelas no plasma. São os privilégios de quem tem o poder absoluto sobre o comando. Ele, se quer ver um jogo de futebol, tem de ir ao café da esquina, onde come uns amendoins e dá pulos de alegria que nem um macaco quando o Sporting mete golo. Quando elas não estão a ver telenovelas, falam tanto entre si, que até o papagaio fica cansado de as ouvir. Os três filhos, mal nasceram, foram imediatamente filiados no Sporting pelo Fagundes antes que a sogra os filiasse no Benfica. Para grande desgosto dele, os filhos, depois de ficarem crescidotes, deixaram de ligar patavina ao futebol. Preferem ir com a mamã ver espectáculos de ballet clássico em vez de irem com ele ver os clássicos Sporting-Benfica.

O cão, que pertence ao Fagundes, é um rottweiler psicopata que morde a pata a quem lhe pede a pata. Ele anda sempre de dente afiado a querer fazer a folha ao gato. O gato, que pertence à mulher, tem medo das alturas. Tem alturas em que nem sequer se levanta quando está deitado. Ele passa a vida a querer filar o papagaio, que tem a mania que é a águia do Benfica. O papagaio é um caso exacerbado de dupla personalidade. O Fagundes anseia por fazer arroz de papagaio com ervilhas porque o raio do papagaio passa a vida a cantar «SLB!» quando encarna a personalidade da águia invencível do Benfica. A sorte do papagaio é que pertence à sogra, que intercede por ele nos momentos mais aflitivos, especialmente quando o Sporting perde com o Benfica. Nessas alturas, o Fagundes agarra com todas as ganas o papagaio, e sem qualquer pena dele tenta depená-lo, só que o papagaio grita desalmadamente por socorro. O papagaio acaba sempre por se safar incólume, porque a sogra, que é surda que nem uma porta, tem bom ouvido para o que lhe interessa. Mas o grande sonho do Fagundes em termos culinários é fazer um assado de águia do Benfica no espeto.

O Fagundes tem carta de pesados, de ligeiros, de motociclos e de aspirador. Como gosta de se valorizar em termos académicos, tem um curso de Higiene e Segurança no Trabalho Doméstico, na especialidade de lavagem de pratos à mão, tirado na Universidade Africanófona. Para isso bastou fazer uma cadeira denominada: "A Acção dos Detergentes Sobre a Gordura Deixada nos Pratos pela Carne de Porco à Alentejana". Quanto às outras cadeiras, deram-lhe equivalência por ter sido director do Grupo Folclórico dos Pauliteiros da PSP. Ele aspira a deixar de conduzir o aspirador e a livrar-se de lavar pratos, mas o raio da sogra não deixa. Diz ela que ele é muito jeitoso para os trabalhos domésticos, que tem umas mãozinhas muito delicadas para lavar à mão os cristais e as porcelanas, e que aspira muito bem os cantos da casa. Quanto a cozinhar, a sogra não o deixa entrar na cozinha. Sendo ela benfiquista, não se arrisca a comer os cozinhados dum sportinguista fanático, não lhe vá dar um fanico. Sabe-se lá que temperos é que um sportinguista poria na comida duma benfiquista.

O Fagundes, para além de ter uma carrinha familiar tipo Arca de Noé, onde mete a família toda para dar os passeios domingueiros, tem uma mota Harlinda Davidiana. Uma vez por ano, o Fagundes tem autorização da sogra e da mulher para ir a Faro à concentração de motoqueiros, isto como prémio de bom comportamento. Aí, de capacete com cornos enfiado nos cornos, juntamente com outros motoqueiros feios, porcos e maus, bebe umas cervejolas e vê espectáculos de striptease. Fareja as strippers de longe, não vá chegar-lhe a mostarda ao nariz. Depois de pavonear a sua Harlinda Davidiana no meio de milhares doutras motas, volta ao doce lar, onde lhe colocam de novo a trela. O Fagundes gosta tanto da sua Harlinda Davidiana ao ponto de querer dormir com ela. Só ainda não o fez porque ela tem um corrimento de óleo no cárter. Se tal fizesse, a mulher iria dormir para o sofá, o cão iria dormir para o cesto do gato, o gato iria dormir para o poleiro do papagaio, e o papagaio iria dormir o sono eterno para o forno de microondas. Quanto à santa da sogra, ela é intocável – é a santa ogra. Bem, ele mal aflorou o assunto à mulher, dormiu no sofá durante um mês, e o cão lá teve de dormir em cima dum tapete a cheirar a cão na varanda. Pobre bicho – ele que até é alérgico a pêlo de cão.

O agente Silva, que é um grande defensor dos direitos dos animais, excepto os dos humanos, aos quais não se inibe de dar porrada de três em pipa, quando viu o gato a atravessar a estrada a correr, guinou para a esquerda para não o passar a ferro. Não conseguindo controlar o carro, espetou-se de frente contra uma carrinha.

«Foda-se!» – exclamou o Silva. «Que raio de merda é que eu arranjei por causa dum gato preto. Vê-se mesmo que é Sexta-feira, 13. Isto é que é mesmo um dia de azar. E logo eu, que tenho um curso de condução avançada tirado na Escola de Condução Avançada Farinha Desamparo. Agora como é que vou justificar esta aselhice perante o chefe? Ainda vou ser responsabilizado pelo arranjo do carro.»

«Deixa lá, são coisas que acontecem.» – disse o Fagundes.

O Gungunhana, já do outro lado da estrada, miou para os seus bigodes, uma vez que a fatiota de pêlo que sempre usou não tem botões: «Será que o polícia que ia a conduzir o carro tem carta de condução? Bem, lá na minha terra, qualquer bruxa que se preze tem brevet de vassoura. Este polícia é mesmo um granda nabo.»

Tanto a carrinha como o carro da polícia ficaram com as beiças metidas para dentro. A carrinha, de marca HiAche, estava num tal estado avançado de decomposição que andava sempre na iminência de largar peças pelo caminho. Ela ia carregadinha de ciganos. Lá ia a família toda – o patriarca de barbas brancas e de chapéu preto, a matriarca vestida de negro e de lenço na cabeça, filhos e noras, e uma caterva de netos, isto tudo ao monte.

«Estamos bem fodidos!» – exclamou o Silva. «São ciganos! Estes gajos só arranjam confusão. Isto vai ser uma autêntica dor de cabeça.»

«Não há-de ser nada.» – respondeu o Fagundes com um ar impávido e sereno de quem até já viu um porco a praticar kitesurfing.

«Ai Manelii, estamos desgraçados!» – disse a matriarca para o filho que ia a conduzir a carrinha.

«Ai mãee, estes gajos vão fazer-nos mal! Ó paii, telefona já aos tios para nos virem ajudar!»

Os dois polícias saíram do carro e dirigiram-se para a carrinha. O Silva ficou de pé atrás, não fossem os ciganos tecê-las. O Fagundes lá foi dando a volta do costume à carrinha como quem dá a volta ao bilhar grande. Foi murmurando: «Hum! O seguro está caducado. A última inspecção foi feita há cinco anos. O benjamim da família viaja ao colo da mãe. O pessoal todo viaja atrás sem cinto…


NOTAS EXPLICATIVAS

Título do livro: As Cuecas
Autor: Luís Duarte
ISBN: 978-989-20-3454-6
Email: info@literaturadecordel.pt
Sítio: literaturadecordel.pt